Ninguém dá de presente uma caneca cheia. Ninguém entra numa loja e pede a caneca já com o café dentro. A caneca vale justamente porque está vazia. O vazio dela é a promessa de todos os cafés que ainda vão vir.

Só que a gente não gosta de vazio. Vazio na conta, na agenda, no coração depois de uma perda. E quando o assunto é servir, a lógica fica ainda mais cruel. A gente acha que precisa estar cheio para poder servir: cheio de tempo, de dinheiro, de preparo, de resposta. Quem está vazio, pensamos, precisa ser servido.

Em Regadores Vazios, Gabriel Gomes dedica um capítulo inteiro a desmontar essa ideia. E ele começa pelo texto mais alto do Novo Testamento sobre quem é Cristo.

O Deus que se fez vazio

antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.

Filipenses 2.7-8

Paulo escreve preso, a uma igreja pequena e generosa, e pede que ela tenha “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Filipenses 2.5). Esse sentimento tem nome: esvaziamento. O Deus que enche todas as coisas se apresenta como alguém que se fez vazio.

Vale a precisão. Cristo não deixou de ser Deus. Ele se esvaziou da manifestação da sua glória, dos privilégios do seu lugar, do direito de ser servido. E repare no detalhe do texto: ele a si mesmo se esvaziou. Ninguém tirou nada dele. O vazio de Cristo foi uma decisão, e decisão é o nome que o amor recebe quando sai do sentimento e entra na história.

Adão estendeu a mão para agarrar a igualdade com Deus e perdeu tudo. Cristo, que era igual a Deus de verdade, abriu a mão. Filipenses 2 é a história do Éden contada ao contrário.

Caneca cheia de caneca

A ideia comum de serviço segue uma ordem. Primeiro eu me encho, depois eu sirvo. Primeiro a estabilidade, depois a generosidade. Primeiro a cura das minhas feridas, depois o cuidado com as feridas dos outros. Parece sensato. Mas essa lógica supõe que a força que serve vem de dentro de nós, e a Bíblia nega isso.

Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.

2 Coríntios 4.7

O barro faz parte do projeto. Deus coloca o tesouro no barro de propósito, para ficar claro de quem é o poder. Se o vaso fosse de ouro, a gente ia elogiar o vaso.

Isso vira desculpa para o despreparo? O livro enfrenta a objeção de frente. A Bíblia manda o obreiro se apresentar a Deus “aprovado”, como quem “maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2.15). Estar vazio de si e estar despreparado são coisas bem diferentes. O preparo enche a mente; o esvaziamento esvazia o trono. O problema nunca foi a caneca estar cheia de café. O problema é a caneca estar cheia de caneca.

Vasilhas vazias, não poucas

Em 2 Reis 4, uma viúva bate à porta de Eliseu. O marido morreu, a dívida ficou, e o credor vem levar os dois filhos como escravos. O profeta pergunta: “Dize-me que é o que tens em casa” (2 Reis 4.2). Ela responde que não tem nada, “senão uma botija de azeite”.

A ordem que vem em seguida é uma das mais estranhas da Bíblia: “Vai, pede emprestadas vasilhas a todos os teus vizinhos; vasilhas vazias, não poucas” (2 Reis 4.3). Ela fecha a porta, começa a derramar o restinho de azeite, e o azeite não para. Até que o filho avisa: “Não há mais vasilha nenhuma. E o azeite parou” (2 Reis 4.6).

O azeite parou quando acabaram as vasilhas vazias, e só por isso. Deus tinha azeite de sobra. O que limitou a provisão foi a quantidade de vazio que ela colocou diante dele.

O capítulo lembra David Brainerd, jovem do século dezoito, doente e quase sem recursos, pregando aos indígenas das florestas de Nova Jérsei. Semanas sem resultado, noites de desânimo. Em 1745, numa aldeia chamada Crossweeksung, Deus derramou um avivamento. Brainerd aprendeu o valor de ficar diante de Deus como uma vasilha vazia, e de ficar ali até o azeite correr.

Filipenses 2.13 explica de onde vem tudo isso: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. A vontade de servir e a força para servir vêm dele. Se hoje você tem o mínimo desejo de regar alguém, esse desejo já é azeite derramado por Deus na sua vasilha.

O que você tem em casa

Boa parte da gente que não serve está só esperando ficar cheia. Esperando o salário melhorar, a ansiedade passar, a ferida fechar. Enquanto isso, a caneca fica na prateleira, bonita e intacta, sem aquecer ninguém.

Então a pergunta de Eliseu volta para nós: o que você tem em casa? Uma hora livre na terça à noite. Um carro com espaço para dar carona. Uma cozinha onde cabe mais um prato. Deus pergunta o que há, nunca o que falta. E depois pede vasilhas vazias.

Por trás de tudo está o Cristo que se esvaziou primeiro. Antes de você derramar uma gota, ele derramou a própria alma na morte. E foi exaltado: o vazio dele virou plenitude, a cruz virou trono. Para quem está nas mãos dele, o vazio virou o lugar onde o milagre começa.

Este texto nasce do capítulo “O valor do vazio”, de Regadores Vazios, de Gabriel Gomes. No livro, o chamado ao serviço é desenvolvido em dez capítulos, da humildade de Cristo ao perdão e ao cuidado, sempre com aplicação para a casa, a igreja e o trabalho. Se estas linhas mexeram com você, o livro inteiro é um bom lugar para continuar a conversa.

Equipe Holynk