Em Êxodo 3 e 4 existe uma conversa em que Deus fala e um homem discute. Cinco vezes. Com Deus. Na frente de um arbusto pegando fogo.

Deus diz: vai. Moisés pergunta quem ele é para isso. Depois quer saber o nome de Deus. Depois teme que ninguém acredite. Depois alega que não sabe falar. E, sem argumento nenhum sobrando, chega à verdade: manda outro.

Talvez você conheça essa lista. “Eu não tenho preparo.” “Eu não sei falar.” “Ninguém vai me ouvir.” “Tem gente melhor.” A gente costuma chamar isso de humildade. Em Eu Serei Contigo, livro em que Gabriel Gomes acompanha a formação de Moisés como líder, a sarça é o capítulo que dá nome à obra. E ali Deus chama essa lista de outra coisa.

Deus fala com quem para

Moisés tinha oitenta anos e levava o rebanho do sogro pelo deserto, num dia comum. “Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia” (Êxodo 3.2). Arbusto pegando fogo naquele calor não era novidade para um pastor com quarenta anos de deserto. Novidade era o arbusto não acabar. A Bíblia nem diz que planta era. Deus não escolheu um cedro do Líbano. Escolheu um mato.

O versículo 4 guarda um detalhe precioso: “Vendo o Senhor que ele se voltava para ver, Deus, do meio da sarça, o chamou” (Êxodo 3.4). Deus só falou depois que Moisés se voltou. Quantas sarças já arderam na sua vida enquanto você passava reto, com pressa de levar o rebanho?

Antes de qualquer tarefa, Deus abre o coração: “Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo” (Êxodo 3.7-8). Vi, ouvi, conheço, desci. E logo depois: “Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó” (Êxodo 3.10). Deus desceu, e Deus envia. Ele podia fazer sozinho. Escolheu fazer por meio de um pastor de oitenta anos.

Moisés pergunta sobre Moisés

Então, disse Moisés a Deus: Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel? Deus lhe respondeu: Eu serei contigo.

Êxodo 3.11-12

Repare na resposta. Nenhuma lista de qualidades. Nenhum elogio à formação que ele recebeu no Egito. Moisés pergunta sobre Moisés, e Deus responde sobre Deus. A pergunta “quem sou eu?” fica sem resposta porque Deus a troca por outra: quem vai contigo.

Em hebraico, “eu serei” é ehyeh. Dois versículos depois, Deus revela o seu nome: “Eu Sou o Que Sou” (Êxodo 3.14), ehyeh asher ehyeh. Mesmo verbo. O nome dele e a promessa dele são a mesma palavra. Quem ele é, ele é para você.

Quando Moisés diz que é pesado de boca, Deus pergunta: “Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o Senhor?” (Êxodo 4.11). E promete: “Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca” (Êxodo 4.12). Ele não troca a boca de Moisés. Vai com ela.

Quando a modéstia vira recusa

A quinta objeção muda o tom: “Ah! Senhor! Envia aquele que hás de enviar, menos a mim” (Êxodo 4.13). E o texto diz que “se acendeu a ira do Senhor contra Moisés” (Êxodo 4.14). O “quem sou eu?” era honesto, e Deus o respondeu com ternura. A ira veio na quinta desculpa, depois de quatro respostas. Humildade que recusa a Deus já virou orgulho de cabeça para baixo.

O livro faz aqui uma confissão que incomoda: a oração insegura pode ser tão egoísta quanto a ambiciosa. “Senhor, me dá mais” e “Senhor, me tira dessa” têm o mesmo sujeito. Aos quarenta, Moisés dizia “eu consigo”. Aos oitenta, “eu não consigo”. Nos dois casos, o assunto era Moisés. Insegurança é autocentralidade com cara de modéstia.

Mesmo irado, Deus provê. Arão já estava a caminho antes de Moisés aceitar. E a conversa termina com o mesmo objeto do começo: “Toma, pois, este bordão na mão, com o qual hás de fazer os sinais” (Êxodo 4.17). Um pau de pastor e uma promessa. Era tudo de que ele precisava.

O nome da sarça tem rosto

Jesus tomou para si o nome da sarça: “antes que Abraão existisse, Eu Sou” (João 8.58). O “eu serei contigo” virou Emanuel, “Deus conosco” (Mateus 1.23). E as palavras com que Jesus se despede dos discípulos são a sarça falando de novo: “eis que estou convosco todos os dias” (Mateus 28.20). O “eu serei contigo” de Moisés era para uma missão. O nosso é para sempre.

Talvez você esteja diante de uma sarça hoje. Assumir uma classe, liderar o culto no lar, conversar com aquele filho, abrir a boca sobre o evangelho no trabalho. Vale a pergunta honesta: eu estou dizendo “não posso” ou estou dizendo “não quero”? Olhe para a sua mão, veja o que tem nela e dê o primeiro passo. Quem vai contigo pesa mais do que quem você é.

Este texto nasce do capítulo “Sarça”, de Eu Serei Contigo, de Gabriel Gomes. O livro percorre a vida de Moisés do palácio do Egito à passagem do comando a Josué, e cada capítulo termina com uma trilha de formação para quem lidera na igreja, em casa ou no trabalho. É uma leitura para quem quer liderar a partir da presença de Deus.

Equipe Holynk